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“A mobilidade elétrica pode baixar o preço da energia”

São 10h40. Na garagem Nuno Ribeiro da Silva tira com facilidade o carregador da tomada e arruma-o na bagageira do carro. A tarefa não oferece resistência, nem choques, a um gestor que não é (ainda) um condutor habitual de carros elétricos. “Mas vou comprar um elétrico”, promete. “O Tesla é apelativo, mas tem um custo pesado”, observa ainda o presidente da Endesa Portugal.

Entramos no Kia Soul, o veículo que a Endesa escolheu para a sua volta ibérica em carro elétrico, uma campanha de promoção da mobilidade elétrica que passou na última semana por Portugal. Na etapa lisboeta Nuno Ribeiro da Silva saltou para o volante e deu uma boleia ao Expresso de Oeiras a Lisboa.

O presidente da Endesa Portugal perspetiva com entusiasmo o “novo mundo” da mobilidade elétrica. Avança que, com as condições atuais, sem precisar de grande investimento em infraestrutura, Portugal podia já ter 1,25 milhões de carros elétricos. Mas falta melhorar as regras para a instalação de carregadores. “É urgentíssimo”, sublinha.

Ao longo dos últimos anos diversas empresas vêm adotando programas de substituição das suas frotas, incentivando os funcionários a adquirir carros elétricos. Em Espanha são já 6% os funcionários da Endesa com este tipo de veículos, incentivados por um programa que a elétrica lançou que atribui um prémio remuneratório para comparticipar a compra de um elétrico. A subsidiária portuguesa está agora a tentar implementar esses mesmos apoios.

Conhecedor do funcionamento do sector energético, Nuno Ribeiro da Silva realça o contributo positivo que a mobilidade pode ter na gestão da rede elétrica. “Deve haver um forte estímulo [nos preços] para as pessoas carregarem nas horas de vazio, porque isso permite uma utilização mais racional da infraestrutura elétrica”, defende o gestor.

E do interesse dos portugueses neste tipo de veículos podem surgir benefícios para a generalidade dos consumidores de eletricidade. É que quanto maior for o volume de energia consumido, mais se diluem os custos fixos do sistema elétrico, potencialmente baixando as tarifas de uso da rede. “O racional é que a mobilidade elétrica pode baixar o preço médio da eletricidade”, observa Nuno Ribeiro da Silva.

Mas se o carregamento noturno de carros elétricos pode favorecer um melhor aproveitamento do sistema eletroprodutor pelo lado da procura, ele continuará sempre a precisar, do lado da oferta, de uma folga, uma capacidade excedentária que garanta que, em caso de falha de uma grande central, outra de igual potência esteja pronta a produzir. “O sistema elétrico tem sempre necessidade de ter redundâncias. Tem sempre de ter cinto e suspensórios”, assinala Ribeiro da Silva.

Por outro lado, não é ainda clara a tendência dos tarifários que os comercializadores de energia oferecerão aos donos de carros elétricos. Uma maior procura da rede de carregamento poderá levar as elétricas a inflacionar as suas tarifas. Mas, ressalva o gestor, essa evolução depende de vários fatores, como o custo dos combustíveis fósseis e a fiscalidade.

Ribeiro da Silva acredita que a adesão dos portugueses aos carros elétricos vai acelerar e a massificação deste tipo de veículos “vai demorar muito pouco tempo”, até porque “todas as marcas estão a bombar com uma enorme variedade de veículos elétricos”.

No nosso trajeto pela marginal, junto ao Tejo, e após algumas paragens fotográficas, a velocidade é menor. Às 11h15 passamos ao lado do Mosteiro dos Jerónimos. O percurso, que teria como ponto de chegada o topo do Parque Eduardo VII, está dentro do programa. E a regulação? “O meu apelo é que o regulador esteja atento. O regulador português deve dotar-se tecnicamente de um núcleo que acompanhe a dinâmica que vai surgindo, para não ser ele próprio um elemento de entropia e um travão ao aproveitamento desta dinâmica tecnológica”, defende o presidente da Endesa Portugal. Em Espanha, diz Nuno Ribeiro da Silva, “no fundamental a regulação tem respondido”.

Entre outros desafios, a mobilidade elétrica está também sujeita a críticas. E uma delas é a de que, ao contrário do que alguns discursos sugerem, os carros elétricos não são necessariamente uma solução de mobilidade livre de emissões. Isto porque a energia que os alimenta pode, a montante, ter uma significativa quota de combustíveis fósseis (em Portugal as centrais a carvão e a gás natural ainda têm um peso relevante na produção elétrica).

Nuno Ribeiro da Silva reconhece que a mobilidade elétrica pode não ser totalmente limpa, ainda que “tecnicamente hoje possamos alimentar o sistema com eletricidade 100% renovável”. O presidente da Endesa Portugal sublinha que “muitos países estão a caminhar num prazo de 10 a 15 anos para um sistema totalmente renovável”. Para tal, esses sistemas precisarão de substituir os seus backups tradicionais (centrais térmicas que podem armazenar stocks de carvão e gás) por outras soluções que possam responder à intermitência das fontes renováveis (como a armazenagem de água nas barragens ou baterias industriais).

Pelas 11h45, numa paragem em frente ao Ministério das Finanças, Nuno Ribeiro da Silva acende a sua primeira cigarrilha, ao fim de uma hora ao volante. O carro enfrenta agora o trânsito da Baixa lisboeta. Não há percalços. E não há choques. Nem elétricos nem mecânicos.

Em Portugal a Endesa ainda não criou um tarifário específico para a mobilidade elétrica, ao contrário do que já fizeram as suas concorrentes EDP e Galp, entre outros operadores. Segundo Nuno Ribeiro da Silva essa não foi ainda uma prioridade da empresa, porque até ao final de outubro os carregamentos na rede pública eram gratuitos. O tempo dirá se a Endesa precisará de afinar a sua estratégia comercial. Na chegada ao topo do Parque Eduardo VII o tempo disse outra coisa: a viagem feita ao sol termina com uma chuva inclemente. Tempo para uma última fotografia e ponto final na conversa.

IN: Expresso (18 novembro 2018)

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