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E se as temperaturas subirem mais de 1,5º? ONU diz que será difícil viver no planeta

É bom que se aja rapidamente para que os termómetros não subam mais de 1,5º em média até finais do século, alerta o último Relatório Especial da ONU sobre alterações climáticas. Se assim não for, não será fácil viver neste planeta. Os cientistas entregaram o seu veredicto este domingo, agora resta ao políticos traduzi-lo em ações concretas.

Ou se intensificam as ações climáticas, face às evidências inequívocas de que o aquecimento global não deve ir além de 1,5ºC acima das temperaturas verificadas na era pré-Industrial, ou será difícil viver neste planeta no final deste século. À taxa atual do aquecimento global, os termómetros deverão subir 1,5°C entre 2030 e 2052, ou seja já nos meados do século XXI. O alerta vem no último Relatório Especial do Painel Intergovernamental para as Alterações climáticas da Organização das Nações Unidas (IPCC/ONU), divulgado na madrugada desta segunda-feira.

O objetivo de impedir que as temperaturas médias globais subam mais de 1,5º a 2º Celsius até ao fim do século foi alinhavado no Acordo de Paris, assinado em 2015. Agora os cientistas que trabalham para o organismo científico mais importante do mundo na área do clima vêm confirmar que é mesmo importante que não se ultrapasse os 1,5º para evitar “terríveis consequências”.

Esta diferença de meio grau não é despiciente. “Manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C significa uma diminuição das pessoas expostas a ondas de calor, chuvas fortes, secas, tempestades e inundações”, sublinha Francisco Ferreira, engenheiro do ambiente e presidente da associação ambientalista Zero, que analisou o relatório. Neste, os cientistas constatam que manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C, em vez de 2ºC, permite, por exemplo, que a subida do nível do mar fique 10 cm abaixo do esperado até 2100, dando aos sistemas humanos e ecológicos novas oportunidades para se adaptarem.

Considerado o mais importante relatório de ciência climática da década, o documento pretende influenciar a tomada de decisões de política climática internacional para os próximos anos.

NÃO NOS RESTA MUITO TEMPO PARA AGIR

Há cerca de um mês, o secretário-geral da ONU António Guterres advertiu que “as alterações climáticas estão a avançar mais rapidamente do que nós” e que restam dois anos para que se tomem medidas efetivas para travar as alterações climáticas. Caso contrário, sublinhou, haverá “consequências desastrosas”.

Este relatório do IPCC vem chamar a atenção para essas consequências e lembrar que, desde a segunda metade do século XIX até agora, a temperatura média global já subiu 1°C devido às atividades humanas, sendo esse aumento duas a três vezes maior no Ártico. Só desde os anos 70, já desapareceu cerca de metade da camada de gelo que cobria o Ártico no Verão. E poderá desaparecer por completo nas próximas décadas se não se cortarem as emissões de gases de efeito de estufa de origem antropogénica. O IPCC mostra que os prejuízos futuros dependerão muito dessa rápida redução das emissões.

Entretanto, os efeitos do aquecimento já se fazem sentir um pouco por todas as regiões do Planeta. A onda de calor que atingiu o Norte da Europa, a seca que afetou os países do Sul ou a China, as anómalas monções registadas na Índia ou os incêndios nos EUA ou na Suécia são só alguns exemplos dos eventos extremos que já se começam a sentir.

“Sendo um continente densamente povoado, com os últimos verões a registarem ondas de calor com picos nas taxas de mortalidade na Europa, manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C é do melhor interesse de todos os europeus", reforça o dirigente da Zero com base na análise feita ao relatório e lembrando que mantiver o aumento abaixo de 1,5°C, "significaria menos europeus expostos ao calor extremo, aos riscos de seca, de escassez de água e de alimentos".

O problema é que apesar dos compromissos assumidos no Acordo de Paris, muito pouco se tem feito efetivamente para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa como o CO2, o que encaminha o Planeta para um aumento médio de 3ºC, o que corresponde ao dobro do que este relatório aponta como desejável. Ou seja, o compromisso na União Europeia em reduzir as emissões em 40% até 2030 e ser neutra em carbono em 2050, está longe de suficiente.

Os compromissos "têm de ser muito mais ambiciosos para reduzir as emissões dos sectores da energia, uso do solo, indústria e espaço urbano", defende a Zero com base no relatório do IPCC. Alguns Estados-Membros, como a Holanda e a Suécia, "já apelaram para que a meta de redução de emissões seja de 55% já em 2030", recorda a associação ambientalista. Agora esperam-se as novidades na nova estratégia climática de longo prazo que deverá ser apresentada em novembro pela Comissão Europeia.

TODOS TEMOS DE MUDAR

“É urgente limitar o aquecimento global a 1,5ºC e estimular a transformação da economia em grande escala”, aponta a Zero, considerando que “essa tarefa poder ser esmagadora às vezes”, mas que “o relatório do IPCC traz esperança”. O caminho para “um futuro mais seguro e próspero” passa por “apostar num sistema de energia 100% renovável, acelerando a substituição de toda a energia poluente, começando com o carvão; intensificar os investimentos em eficiência energética, produção industrial e consumo mais limpos; e em parar imediatamente os investimentos em infraestruturas baseadas em combustíveis fósseis", recorda o engenheiro do ambiente que tem participado em todas as reuniões internacionais relacionadas com as alterações climáticas.

Para Francisco Ferreira,“o relatório reforça a necessidade de cada um dos países, incluindo Portugal, ir muito mais além e mais depressa em relação ao atualmente previsto". O ambientalista lembra que "Portugal é dos países europeus mais afetados pelas alterações climáticas", e que "o roteiro para a neutralidade carbónica em 2050 (que o governo está a preparar) é uma oportunidade única que tem de ser concretizada pelos próximos governos, num consenso alargado de todas as forças políticas e assumido por toda a sociedade".

Esta terça feira, os Ministros do Ambiente da União Europeia vão reunir-se, no Luxemburgo, para adotar a posição da UE na próxima Cimeira do Clima das Nações Unidas (COP24), que terá lugar em dezembro em Kotowice, na Polónia. Os decisores políticos têm de agir e os cidadãos têm de exigir e mudar profundamente o seu estilo de vida.

IN: Expresso (8 outubro 2018)

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