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Incêndios forçam novo estudo sobre quantidade de biomassa

Os 12 milhões de toneladas de pinho e eucalipto ardidos no ano passado lançam dúvidas sobre a existência de matéria-prima suficiente na proximidade das centrais em construção no Norte e Centro.

O Centro da Biomassa para a Energia está a estudar o impacto dos incêndios do ano passado na disponibilidade de matéria-prima na floresta para abastecer as oito centrais de biomassa autorizadas pelo Governo. Os incêndios destruíram 442 mil hectares de mata e floresta e desatualizaram os estudos já feitos. Sem resíduos suficientes, poderão queimar troncos de madeira ou até culturas energéticas, plantadas para o efeito.

Carlos Alegria, proprietário da empresa que construirá as centrais do Fundão e Viseu e presidente da Associação dos Produtores de Energia e Biomassa, teme que não haja matéria-prima suficiente. "Há muita madeira queimada, teremos biomassa para dois ou três anos, mas depois estou muito preocupado, sobretudo no Fundão", diz. A ponto de estar a contactar Espanha, para importar resíduos florestais, por comboio.

As centrais de biomassa são fábricas de produção de eletricidade a partir da queima de resíduos orgânicos. A matéria-prima é biomassa, como a que resulta da limpeza ou desbaste da floresta, sobrantes da agricultura (cascas de amêndoa ou bagaço, por exemplo) ou culturas energéticas, plantadas para abastecer as centrais.

O foco, contudo, tem sido colocado na floresta. As centrais de biomassa têm sido apresentadas como uma forma de dar valor económico a resíduos como ramos de árvores e folhagens e, assim, incentivar os proprietários a limpar os terrenos. A biomassa é, por isso, abordada na Estratégia Nacional para as Florestas e no Plano de Valorização do Interior.

Resíduos ou troncos

A existência de matéria-prima suficiente não é consensual. Sá da Costa, da Associação de Energia Eléctrica de Fontes Renováveis, assegura que "Portugal está perto do limite" e que, se houver muitas centrais, "não vamos queimar biomassa residual mas, sim, rolaria, toros de madeira". Por isso, "a biomassa tem pernas para andar, mas muito curtas".

Pedro Clemente Nunes, especialista em energia, garante que "a capacidade de produção de biomassa é brutal", até porque há regiões cuja orologia não permite a agricultura e que podem ser aproveitadas para floresta. A questão é a localização.

Transportar resíduos, sobretudo se não forem triturados, é caro e deixa de compensar, a partir de um raio de 20 quilómetros, diz João Dinis, da Confederação Nacional da Agricultura. E já hoje, assegura, existe sobreexploração. "O uso de sobrantes em centrais de biomassa é positivo, mas tudo depende da dose, para não rapar o solo da floresta", diz.

Sande Silva, professor na Escola Agrária de Coimbra, confirma que Portugal tem uma capacidade de produção de biomassa superior à maioria dos países europeus e lembra os muitos povoamentos abandonados, por limpar. "É preciso é fazer contas para saber se vale a pena ir buscar."

Mas assevera que a biomassa não é a solução para a reduzir os combustíveis na floresta. Tal como sucedeu com o eucalipto, "a procura estimula a oferta" e "os proprietários vão plantar espécies exóticas", para abastecer as centrais. E, "mais cedo ou mais tarde", disse Sande Silva, essas culturas serão abandonadas, agravando o problema de infestação por exóticas.

A vertente ambiental não pode ser descurada, apela Joanaz de Melo, do Geota, que alerta para o risco de serem lançadas partículas na atmosfera. E nem todos os resíduos florestais são boa matéria-prima, nem a tecnologia usada é eficiente. "Portugal é um país pobre, não pode desperdiçar dinheiro em tecnologias sem potencial de desenvolvimento", afirmou.

IN: Jornal de Notícias (24 julho 2018)

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