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Falta uma “nova cultura de colaboração” entre quem faz os edifícios, diz Lívia Tirone

Pioneira na construção sustentável, Lívia Tirone projectou, há cerca de 30 anos, as primeiras casas bioclimáticas e sustentáveis em Portugal. Na altura, o tema era pouco falado, mas, desde aí, muito mudou e, hoje, as preocupações com a sustentabilidade e o ambiente já estão presentes no sector da construção. Esta evolução foi ao encontro das expectativas da arquitecta bioclimática, que é uma das vozes nacionais mais respeitadas nesta área e que, na semana passada, participou na segunda edição da Conferência Green Project Awards (GPA), subordinada ao tema “Imobiliário e Cidades Sustentáveis para o Futuro das Gerações”.

A arquitecta, formada na Universidade de Westminster, em Inglaterra, foi também co-fundadora do THNK Lisbon e mentora da iniciativa REBUNDANCE, dedicando-se à defesa do ambiente, através da sustentabilidade, tendo sido vanguardista em Portugal e no resto da Europa. “Foi esta visão que motivou a equipa durante 25 anos a focar a sua criatividade e incansável experimentação nesta área”, reconhece. “Coloco-me ainda hoje a pergunta se, efectivamente, conseguimos impregnar as práticas comuns da construção com a sustentabilidade de que precisamos... Foi também um percurso de grande aprendizagem”.

No que se refere à construção sustentável e amiga do ambiente, a especialista está convicta de que Portugal tem motivos para ser bem sucedido – “Com as condições que temos, efectivamente, é possível realizar edifícios que, para serem confortáveis para os seus habitantes, não precisam de energia”. Mas há também trabalho a fazer e, para a arquitecta, são necessários “alguns passos importantes, sobretudo, na criação de uma nova cultura de colaboração entre todos os elementos da equipa que realiza edifícios (dono de obra, arquitecto, engenheiros, especialistas, empreiteiro e utilizador final...). O velho sistema hierárquico e beaux arts com os arquitectos no pedestal já não funciona no contexto da complexidade do sector e da resiliência que precisamos”.

A arquitecta admite que conjugar os pontos de vista de players tão diferentes, como construtores, políticos e académicos não é fácil. “Desenhar e realizar edifícios é um desafio complexo e de grande responsabilidade! Conseguir um óptimo desempenho energético-ambiental nestes edifícios é um desafio ainda mais complexo. A cultura do sector é propícia a modelos de relacionamento hierárquicos e estruturas estanques. O co-design torna-se possível apenas quando consideramos todos os elementos da nossa equipa como pares e quando soubermos ouvir todos os actores relevantes – desde o dono de obra ao beneficiário final - e incorporar as perspectivas e contributos que trazem”, sublinha.

Para o futuro, Lívia Tirone aponta a acessibilidade dos recursos renováveis como uma prioridade. “[Os recursos renováveis] Precisam de se tornar acessíveis e de fácil utilização e baixa manutenção”, destaca a arquitecta, colocando a natureza na equação: “também podemos aprender sobre o relacionamento entre todos os entes vivos e com o clima e com a floresta. As bactérias que ajudam a transformar alimentos e dejectos em outros nutrientes também vão voltar a ter um papel fundamental em nossa casa. Espero acompanhar activamente muito do que aí vem de transformação no meio edificado".

A Conferência GPA teve lugar no Belas Clube de Campo, que se tem distinguido internacionalmente como um exemplo de boas práticas em termos de sustentabilidade, e contou com a presença de diversos oradores, que não quiseram perder a oportunidade de dar a sua opinião relativamente ao tema. O GPA é uma plataforma que se presta a reconhecer e a destacar as boas práticas no domínio da gestão e desenvolvimento sustentável e surgiu através da iniciativa da Agência Portuguesa do Ambiente, da consultora GCI e da QUERCUS ANCN. Desde 2008, a plataforma já distinguiu mais de 120 projectos e já acolheu mais de 1200 candidaturas relativas ao tema ca construção sustentável.

IN: Edifícios e Energia (1 junho 2018)

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