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Fatura da água de 440 mil clientes vai mudar para ajudar a poupar no consumo

“É o ovo de Colombo”, diz o ministro do Ambiente. Ideia de ter na fatura litros consumidos em vez de metros cúbicos surgiu de uma recomendação num inquérito aos consumidores.

Há uma “dissonância” entre a consciência da necessidade de preservar água enquanto valor ambiental e os comportamentos que os portugueses adotam no dia a dia para poupar este recurso escasso. A conclusão é de um estudo da holding Águas de Portugal (AdP) apresentado esta terça-feira.

Mas de entre todas as informações saídas deste inquérito, a que mais surpreendeu o ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, foi uma recomendação a que chama “ovo de colombo”.

“Em vez de a fatura dizer que uma pessoa gasta cinco metros cúbicos de água por mês, deve dizer que gasta cinco mil litros, o que torna a informação muito mais evidente e direta para o consumidor”, afirma ao Expresso o ministro do Ambiente.

João Matos Fernandes considera que esta leitura permitirá às pessoas terem uma noção mais clara das poupanças efetivas que vierem a fazer e adianta que esta alteração vai avançar nas faturas dos clientes da EPAL e da Águas do Norte “até ao fim do ano”. A primeira abastece 350 mil clientes no concelho de Lisboa e a segunda distribui água em baixa por 90 mil clientes de oito municípios do Noroeste.

Quanto aos restantes sistemas que fazem chegar a água a casa das pessoas no resto do país, “a mudança vai ser sugerida” e não forçada, porque não dependem a 100% da AdP.

João Matos Fernandes reconhece que esta “sugestão tão simples” nunca tinha sido até agora equacionada nem por ele nem pelos responsáveis da holding AdP, mas sublinha que a mudança permitirá ao consumidor perceber quantos litros de facto poupou, o que não é percetível quando a conta aparece em metros cúbicos.

Já a partir de junho vai avançar também uma nova campanha de sensibilização para a poupança de água, focada em imagens concretas sobre os gastos com base em exemplos específicos, como o facto de serem necessários 14 litros para lavar os dentes com água a correr, 175 litros de água para fazer um litro de refrigerante; sete mil litros para fazer um par de calças de ganga; ou 500 litros para lavar o carro com uma mangueira quando com um balde e uma esponja bastariam 50 litros.

A ideia é reforçar a campanha que foi para o ar no final do ano passado perante a situação de seca severa que atingia o país. O anterior slogan lembrava que “fechando a torneira um minuto poupamos 12 litros de água e, se todos o fizermos, poupamos 120 milhões de litros por minuto”. Os inquiridos mostram-se recetivos a imagens que lhes transmitam como podem reduzir consumos, mas dizem que as que têm passado não são suficientes e que é preciso contrariar a inércia.

“88% das pessoas reconhecem que não podem continuar a gastar a água de qualquer forma, mas veem isto mais como uma preocupação ambiental do que de poupança de água”, admite o ministro do Ambiente, com base no resultado do estudo divulgado esta terça-feira.

Encomendado pela holding Águas de Portugal e elaborado pelo Instituto de Marketing Research, o inquérito teve por alvo uma amostra de 1662 pessoas com mais de 16 anos, de todo o país.

O estudo constata que os portugueses reconhecem a importância da água e sabem que quando há seca há risco de escassez, mas na prática não poupam no uso diário de água. 62% admitem que se excedem no “uso abusivo da água”. Esta “consciência é importante em termos da mensagem que queremos para a campanha”, sublinha o ministro do Ambiente.

Valorizam o recurso, que sabem não ser abundante (83%), e demonstram preocupações ambientais, mas admitem que desperdiçam e que a consciência só desperta quando há falhas na torneira. Um dos inquiridos admite que as pessoas “às vezes não têm a consciencialização do valor da água porque não sentem falta dela, já que quando têm sede bebem um copo e, pronto, ficam satisfeitos”.

E apesar de os inquiridos admitirem que a água tem um preço relativamente baixo, dizem estar indisponíveis para o seu aumento com o objetivo de maior racionalização de usos. “As pessoas não vão poupar a pensar que poupam no bolso, mas têm de perceber que a necessidade de poupar água não é sazonal e que na bacia do mediterrâneo consome-se mais que aquela que é recarregada pelas chuvas”, sublinha João Matos Fernandes. O ministro reforça a ideia de que “tem de se olhar mais para o lado da procura que da oferta”.

O inquérito revela ainda que cerca de 60% confiam na água que lhes chega, quando há cerca de quatro anos um outro inquérito feito pelas Águas do Porto apontava para apenas 40%, isto apesar de 99% da água distribuída em Portugal ser de boa qualidade, de acordo com os dados da entidade reguladora (ERSAR).

IN: Expresso (9 maio 2018)

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