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“São os consumidores que estão a mudar o sistema energético”, diz líder de renováveis da Accenture

Melissa Stark, ‘managing director’ de Energias Renováveis da Accenture, trabalha há 24 anos na indústria energética. A responsável da consultora esteve em Portugal e, em entrevista ao Jornal Económico, contou como os sistemas digitais estão a reduzir custos na manutenção de turbinas. “Se utilizamos as nossas redes sociais para seguir-nos uns aos outros por que seguimos a nossa turbina?”, disse.

Melissa Stark, managing director de Energias Renováveis da Accenture, trabalha há 24 anos na indústria energética. A responsável da consultora esteve em Portugal e, em entrevista ao Jornal Económico, contou como os sistemas digitais estão a reduzir custos na manutenção de turbinas energéticas e como as redes sociais poderão auxiliar no processo. Na sua opinião, mais do que as empresas, são os consumidores quem tem motivado o investimento em energias renováveis.

Que fatores têm motivado o crescente investimento em energias renováveis?

Diria que o armazenamento tem uma grande influência no investimento em baterias e em todo o panorama a que chamamos o sistema energético. Trata-se de procurar melhores serviços e mais flexíveis em toda a cadeia de valor – procura, transmissão, geração e até distribuição de energia. É a flexibilidade do mercado. Ainda bem que pergunta. O que acho que é uma grande oportunidade para as energias renováveis é o crescimento da RE100, o grupo de empresas que está a aderir à energia renovável a 100%. Já há mais de 130 empresas no RE100, como o Ikea, Google, Amazon, etc.

Alguma empresa aderente que a tinha surpreendido? A Google utiliza energia renovável a 100% desde o ano passado… Como foi essa mudança?

Não tenho a certeza do valor mas penso que foram 2,6 Gigawatts de PPA [Power Purchase Agreements – contratos de longo prazo e de larga escala para comprar energia renovável] que obtiveram só para a empresa. Acho que 95% do seu consumo de energia provem dos data centers, portanto foi aí que investiram e atingiram a sua própria meta. Para ser sincera, acho que são os consumidores que estão a impulsionar esta mudança no sistema energético. Eu não escolheria apenas uma empresa, até porque vou ao website do RE100 todas as semanas para ver as novas empresas que se juntam e vai sempre subindo. Temos um grupo na Accenture que concluiu que são os consumidores quem pede PPA de renováveis. Nos Estados Unidos da América (EUA), temos os programas Community Choice Aggregation (CCA), em que se compra energia para toda a comunidade consoante as suas necessidades. Na Califórnia há oito CCA e até ao final deste ano haverá mais sete, e há outros 13 planeados. E não é só nos EUA, há mais países que estão a aderir.

Na Europa?

Talvez não com o mesmo nome, mas vemos cidades que estão a tentar instalar o seu próprio sistema, a comprar energia renovável de forma diferente, como por exemplo Colónia [Alemanha] e Amsterdão [Holanda]. Mas um fator que também vemos também como motivador do crescimento das renováveis é o digital. Na Accenture o digital é muito importante, acreditamos que isso pode contribuir para o futuro.

E qual é o papel da tecnologia?

O digital está a fazer a diferença em várias perspetivas: em primeiro lugar, no custo, com a capacidade de utilizar a quantidade de dados para reduzir custos de manutenção de turbinas, por exemplo. Dá a hipótese de fazer a monitorização de forma distinta, de comunicar mais rápido, de receber e dar feedback, de localizar encomendas… Podes localizar o teu condutor da Uber, certo? No campo, poderás localizar o teu empreiteiro, quem te celebrou o contrato. No terreno não temos aquele controlo da realidade, instantâneo, como temos na nossa rotina diária, mas será apenas uma questão de tempo. Podemos utilizar a gamificação para a força de trabalho te dizer o que realmente está acontecer e para que possas alterar a forma como operam e torná-la mais eficiente. A nossa “Digital Turnaround” permite que as empresas sejam capazes de capturar e integrar dados quase em tempo real.

Há mais de duas décadas neste setor, como tem sido acompanhar esta transformação?

É o meu 24º ano nesta indústria e aquilo que vejo como maior mudança foi o custo. Por exemplos, os drones, que não são um objeto recente e que os militares já utilizavam, podem agora ser comprados por 25 dólares (cerca de 22 euros) e usados por crianças com uma câmara na mão. À medida que os produtos se tornam mais baratos, dão origem a novas aplicações para dispositivos móveis e abrem outras portas. Se utilizamos as nossas redes sociais para seguir-nos uns aos outros, por que não seguimos a nossa turbina, da mesma forma? Se recebemos uma notificação quando alguém comenta porque é que não recebemos um alerta para a nossa turbina?

A febre dos veículos elétricos será uma tendência a manter? Vai substituir os movidos a gasolina ou gasóleo?

Se olharmos para o “Stop/Start” (“Parar/Ligar”), que antes era raro, agora é quase padronizado em todos os novos veículos. O mesmo vai acontecer com os veículos elétricos, talvez não a 100% híbridos, mas certamente na sua maioria. Acho que o elétrico está a encontrar o seu caminho na indústria automotora em várias formas, que começou com as baterias que utilizam as rádios, os aquecedores. Se vão substituir a propulsão… Depende da situação em cada mercado. Fiz um projeto de eletricidade na Noruega há cerca de seis anos, em 2012 ou 2011. Os híbridos estavam a começar a dar-se bastante bem nesse país e fizemos um business case ali, porque estávamos em 2012 eles já tinham híbridos, a eletricidade era quase gratuita e podiam fazer carregamentos em casa. Porém, nem todos os mercados são assim.

IN: Jornal Económico (7 maio 2018)

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